Liderança feminina e equidade nas organizações

07 | 05 | 2026
Tempo de leitura: 10min

A participação de mulheres em cargos de tomada de decisão ainda está longe da paridade. No Brasil, elas são maioria na população e representam 59,1% das matrículas no ensino superior, mas seguem sub-representadas na alta gestão das organizações. Esse desequilíbrio tem efeitos diretos sobre a capacidade das empresas de ampliar repertórios de decisão, responder a contextos complexos e construir estratégias mais conectadas à realidade.

Em entrevista à FESA Group, Alexandra Segantin, CEO do Grupo Mulheres do Brasil, analisa o papel das organizações na superação dessas barreiras e aponta que a mudança depende de intenção deliberada. Para Alexandra, equidade não é um resultado que chega sozinho: “Se não fizermos com intenção, as coisas vão demorar muito tempo para acontecer.”

A rede como estratégia de transformação

Redes de colaboração entre mulheres são um dos mecanismos mais eficazes para ampliar o acesso a espaços de decisão, afinal, elas funcionam não apenas como suporte emocional, mas como estrutura de influência, visibilidade e acesso a oportunidades que, de outro modo, chegam de forma desigual.

O Grupo Mulheres do Brasil atua em rede, com presença no Brasil e no exterior, mobilizando diferentes frentes de trabalho em torno de transformação social e ampliação da representatividade feminina. A organização estrutura sua atuação a partir de pontos de convergência, usando a diversidade como base para articulação e incidência. “Onde se faz a diferença na transformação social? Quando você tem a caneta na mão”, afirma a CEO.

A construção de redes intencionais dentro das empresas segue esse mesmo princípio. Programas de mentoria, grupos de afinidade e espaços formais de troca entre mulheres em diferentes estágios de carreira ampliam a circulação de referências e encurtam o caminho até posições de liderança. Em muitos casos, o acesso aos espaços de decisão não esbarra na capacidade técnica, mas nas percepções enraizadas sobre quem pode liderar. Essas estimativas confirmam dados do nosso estudo sobre mulheres na liderança e alta gestão,realizado com 595 profissionais brasileiras que evidenciou que o acesso aos espaços de decisão raramente está relacionado à capacidade técnica, mas ao imaginário sobre o que significa ser líder, uma distorção que redes de colaboração ajudam a desconstruir.

Diversidade e inovação na alta liderança

A relação entre diversidade e inovação já deixou de ser hipótese. Organizações com equipes heterogêneas, formadas por perfis distintos em termos de gênero, raça e trajetória, demonstram maior capacidade de construir soluções para problemas complexos. A diversidade amplia o repertório disponível para a tomada de decisão e muda a qualidade das respostas quando o contexto exige leitura plural.

Para Alexandra, essa conexão é direta: líderes com diferentes experiências de vida trazem perspectivas que líderes homogêneos não conseguem acessar. Na avaliação da especialista, a inovação é inerentemente colaborativa, e essa colaboração se aprofunda quando a diversidade atravessa todos os níveis da organização, não apenas os escalões operacionais.

Com frequência, empresas que restringem sua agenda de diversidade aos cargos de entrada perdem o potencial estratégico dessa transformação, visto que o impacto real aparece quando a representatividade alcança os espaços em que as decisões são tomadas. Levantamentos recentes do governo federal mostram o avanço da presença feminina nos cargos mais altos, embora o ritmo ainda esteja longe da paridade. Na prática, a cultura da diversidade na alta gestão tende a produzir ganhos de cultura, inovação e sustentabilidade do negócio.

Nesse contexto, a liderança feminina não se destaca por oposição a um modelo único, mas por ampliar o campo do que é possível dentro de uma organização. Modelos de liderança que incorporam escuta ativa, construção coletiva de decisões e atenção ao bem-estar das equipes respondem a demandas concretas do ambiente corporativo contemporâneo. Na avaliação da entrevistada, mulheres que chegam a cargos executivos não precisam reproduzir padrões masculinizados para serem reconhecidas como líderes. Formas diversas de liderar ampliam a qualidade das respostas organizacionais. Alexandra também destaca o papel dos homens nessa transformação: lideranças masculinas que atuam como aliadas conscientes, abrindo espaço de maneira estruturada, são parte importante dessa equação.

Nas organizações que avançam nessa agenda, a transformação não acontece por adesão espontânea, mas por decisão estratégica. Ela ganha forma em políticas de desenvolvimento, critérios claros de progressão e lideranças que modelam, no próprio comportamento, o que significa liderar de forma diversa. Isso mostra a conveniência da liderança adaptativa: a capacidade de ajustar a postura ao contexto, equilibrando exigência, escuta e responsabilidade.

O papel dos dados na construção da equidade

Decisões sobre diversidade e liderança feminina tendem a ser mais efetivas quando sustentadas por dados concretos: diagnósticos sobre a composição das equipes, mapeamento de barreiras à progressão e análise de indicadores de retenção permitem que as empresas ajam com base na realidade interna, e não apenas por referências externas ou percepções intuitivas.

Alexandra reforça que dados são a base para qualquer tomada de decisão com impacto real. “Dados são essenciais para qualquer tomada de decisão, uma vez que eles trazem possibilidades para ações coletivas que deixam legado”, pontua a CEO. Para ela, compreender os obstáculos que impedem mulheres de alcançar a alta liderança é o primeiro passo para direcionar iniciativas com maior precisão e resultado.

Esse diagnóstico precisa ser feito com rigor e periodicidade; afinal, empresas que monitoram a representatividade de gênero em diferentes faixas hierárquicas conseguem identificar em que ponto da jornada o acesso se estreita, o que torna a intervenção mais precisa e menos dispersa. Dados proprietários, pesquisas internas e benchmarks setoriais compõem a base necessária para uma gestão de diversidade que vá além da intenção.

A sobrecarga emocional como obstáculo estrutural

Um dos fatores que mais compromete a progressão de mulheres na carreira é invisível nos organogramas, mas presente no cotidiano. A sobrecarga emocional acumulada por expectativas múltiplas e simultâneas produz um custo que não aparece nas avaliações de desempenho, mas se acumula ao longo do tempo.

Alexandra aborda esse tema com clareza. “O custo emocional é absurdo. Fomos levadas a pensar que temos que ser a mãe perfeita, a profissional perfeita, a mulher perfeita. Hoje, eu digo: você não precisa dar conta de tudo”, reflete a CEO. Para ela, a nova geração de executivas precisa construir modelos com menos autocobrança e mais compartilhamento de responsabilidades.

Esse debate se conecta diretamente ao esgotamento mental na liderança. Quando a pressão por perfeição se acumula sem suporte institucional, o resultado é o adoecimento silencioso. Empresas que reconhecem essa dinâmica e criam condições para que mulheres líderes atuem sem essa sobrecarga desproporcional constroem ambientes mais sustentáveis para toda a organização.

O papel das organizações na agenda de equidade

Empresas não são agentes passivos nessa transformação. Elas estruturam as condições em que carreiras se desenvolvem, definem quais competências são valorizadas e quais trajetórias são reconhecidas. Por isso, a agenda de liderança feminina pertence, antes de tudo, ao campo das decisões de gestão.

Alexandra ressalta que a mudança é cultural e exige intenção. O Grupo Mulheres do Brasil tem atuado de forma consistente para ampliar a presença feminina em espaços de poder, corporativos e políticos, e iniciativas voltadas à paridade ajudam a transformar esse debate em meta institucional. A articulação em rede entre empresas, poder público e sociedade civil mostra que avanços concretos dependem de coordenação, continuidade e propósito compartilhado.

Incorporar a diversidade como diretriz estratégica passa por traduzi-la em políticas, processos e critérios de progressão. Não como exigência burocrática, mas como reconhecimento de que organizações mais diversas na liderança tendem a responder melhor aos desafios do presente.

Equidade na liderança é uma decisão de gestão

A reflexão proposta por Alexandra aponta para uma conclusão direta: a discussão sobre liderança feminina não se resume à representatividade ou a uma tendência de mercado. Ela diz respeito à capacidade das organizações de tomar melhores decisões, inovar com mais consistência e construir culturas que sustentem o desempenho ao longo do tempo. Tudo isso depende de ampliar a presença de mulheres nos espaços em que as decisões são tomadas, de forma adaptativa.

Tratar equidade na liderança como tema de gestão é reconhecer que cultura organizacional, desenvolvimento de pessoas e desenho de poder caminham juntos. Quando essa agenda deixa de ser simbólica e passa a orientar critérios, processos e oportunidades reais, a transformação ganha consistência.

Dúvidas frequentes sobre liderança feminina

O que impede mulheres de assumir a alta liderança nas empresas?

Os principais obstáculos são estruturais, não individuais. Incluem critérios de progressão baseados em padrões historicamente masculinos, ausência de redes de apoio formalizadas, sobrecarga de responsabilidades domésticas e familiares e a escassez de referências femininas em posições de poder que funcionem como modelo de carreira para as gerações seguintes.

Como as empresas podem promover a liderança feminina na prática?

A promoção efetiva começa por diagnóstico: mapear onde as mulheres estão concentradas na hierarquia e onde esse acesso se estreita. A partir daí, políticas de mentoria, critérios claros de promoção, programas de desenvolvimento e metas de representatividade com acompanhamento periódico compõem uma agenda de ação concreta e mensurável.

Qual a relação entre diversidade de gênero e inovação nas empresas?

Equipes mais diversas tendem a ter maior amplitude de perspectivas para resolver problemas. A presença de mulheres na liderança, especialmente em intersecção com outras dimensões como raça e geração, amplia o repertório de referências disponíveis para decisões estratégicas, o que se traduz em soluções mais adaptadas à complexidade real do mercado.

O que são redes de colaboração feminina e qual seu impacto corporativo?

São estruturas organizadas de conexão entre mulheres, formais ou informais, que ampliam o acesso à informação, visibilidade e oportunidades de progressão. Dentro das empresas, grupos de afinidade e programas de mentoria entre pares funcionam como redes internas que aceleram o desenvolvimento de talentos femininos e reduzem o isolamento em contextos de liderança predominantemente masculina.

Como a sobrecarga emocional afeta a carreira de mulheres executivas?

A expectativa de que mulheres desempenham múltiplos papéis com excelência simultânea produz um custo emocional que, sem suporte institucional, leva ao esgotamento e, frequentemente, à saída voluntária de posições de liderança. Empresas que reconhecem essa dinâmica e criam condições de atuação mais sustentáveis, com flexibilidade, apoio psicológico e divisão equitativa de responsabilidades, retêm mais talentos femininos em cargos estratégicos.

Assista ao conteúdo completo

Para aprofundar os insights de Alexandra Segantin sobre liderança feminina, redes de colaboração e o papel das organizações na agenda de equidade, assista à entrevista completa no formato FESA Entrevista.

FESA Entrevista | Equidade, liderança e o papel das organizações, com Alexandra Segantin

 

FESA Group

A FESA Group é uma empresa brasileira que apoia organizações em toda a jornada estratégica do RH. Do recrutamento e seleção à sucessão executiva, estamos presentes em todo o Brasil criando resultados que inspiram sorrisos.

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